O amanhecer tem uma miragem, tem um brilho que cega mas ao mesmo tempo é o remédio para toda dor e todo medo. Sentada em minha varanda, escrevo agora sobre as canções que se calaram. Justamente aquelas canções que se perderam na imensidão. Que deslizaram de nossas mãos e foram de encontro ao infinito e jamais serão ouvidas novamente.
Do silêncio se fez a vida, e os momentos que jamais retornarão. Mas tenho a absoluta certeza de quando fecho os meus olhos e me concentro bem, posso ouvi-las novamente, em todos os seus acordes e ritmos. E de certa forma, sei que elas permanecem vivas por onde passaram. Por entre florestas, metrópoles e rios... A ecoar no horizonte, a transcender toda concepção de tempo, espaço, vida...
Nossas retinas capturam realidades, porém, existem realidades maiores que meus dedos, meus olhos... Nas quais jamais terei noção de suas formas, sua aparência. O mesmo posso supor do estranho e habitual todo que nos cerca. Somente tentar de olhos fechados, nessa frágil e infinita mente que possuo, criar mundos que só existam em mim...ou ainda sim, não só e exclusivamente.
Mas por agora, executo no silêncio uma canção, que navega num olhar. Uma pluma levada suavemente pelo vento...
(Deborah Caridade)