9.7.16



Lento (Ou o semeador)

     Ele fora incrimidado, por um crime que desconhecia. Um crime de morte e de vida fora o que reconhecera em todas as faces que via nas ruas, onde andara. Agora ele estava sentado, com as mãos nos joelhos e sussurrando a oração que a mãe lhe ensinara na infância. Bons tempos sem fim. Bons tempos que não são os de hoje, mas que ainda habitam, dentro dele. Homero respirava forte, o suor escorria em sua face. Ele não sabia como agir. A quem recorrer. Ele não tinha dinheiro suficiente. Ele só tinha o seu peso e os reflexos de papel que eram seus registros e contas. Tinha no dedo o anel de noivado e a sua amada estava grávida de pouco tempo. 
      Homero tinha e não tinha tempo. E ele só tinha um pensamento. Como as coisas poderiam ser mais simples? Como ele conseguiria emergir do mar do fracasso? Seu pai lhe dizia: "Você foi lento". Sua mãe lhe consolava, dizendo que estava no caminho certo e que quando vencesse, aquelas palavras seriam a base da sua vitória. "Você não é lento, meu filho, você só está no seu tempo, e seu tempo não é o tempo do mundo. Cada um tem o seu despertar, o seu caminhar, ninguém anda com seus pés ou olha por seus olhos." Uma lágrima pousou no seu rosto, mas não fora tristeza, fora alívio. Ele estava em seu caminho. Ele estava no lugar certo. No momento certo. Ele não sabia ainda como, mas sabia que tudo estava a seu tempo. E sua certeza estava contida, dentro da sua fé. Então ele levantou do banco de madeira dos fundos do condomínio, e olhou o tempo. 
      O dia não estava nublado, era ele que estava sem foco. O dia estava lindo como todos aqueles que haviam oportunidades de vitórias. Ainda que lentas. E Homero seguiu o seu caminho, em seu tempo. Passo-a-passo, até desaparecer no horizonte. Com o coração inundado de esperanças e novas idéias.

Deborah P. Caridade 08.07.2016

7.10.11

Corpos em Cena.




Acontece que as coisas mudam...
os cenários, os momentos, as pessoas à nossa volta.
e o que nos resta é o nosso papel, 
nosso personagem diante do palco-mundo.

Nas raízes e vertigens, 
nada do que possa ser dito pode se comparar a um corpo em ação.
em cena, é preciso saber expressar-se, dizer a que veio.
agora as luzes estão sobre você.
e quem és? Quem és?

Nada do que possa ser dito há de permanecer,
sem que as multidões e o tempo as envelheça.
nada é como agora amanhã e o agora muda num segundo.

E o teu corpo em cena faz-me relembrar o éden
e tudo mais que fora proibido
e como todas essas leis foram burladas
E como a multidão de nós busca tanto um eu.
Ser singular na pluralidade.

Na verdade irreflexível os ilusões se mantém,
mas se fores questionada toda sociedade desaba
na cabeça de quem perguntou o porque 

Às vezes bom, às vezes ruim.
a bem e a mal por vezes são relativos
o preço do bem estar de um 
pode custar o do outro. 

E agora você está aí sob olhares
Tentando ser mesmo já sendo.
"Acertando","Errando", se valendo
Do direito humano inquestionável de errar. 
Mesmo brincando com vidas.

Nesse palco-sol nada é ilusão 
Nele existem apenas verdades construídas.

Caridade, Deborah

13.9.11

Versos ao Regressar



Repitam as mesmas frases.
Ecoem as mesmas desculpas,
Esconda-se no indeterminado
Mas afinal, sabemos quem são.

Os donos dos versos roubados,
Dos beijos não dados.
Os mesmos mouros que invadem
sua corte, descortês.

Aprendi, versos são feitos...
De início, meio e fim
Já vi o triunfo e o fracasso,
Lá fora e mesmo em mim.

Não existe silêncio ou vogal ecoada
Que possa ser menos que um verbo
Nem dor ou vício que dure,
Além da redenção da virtude.

Existem palavras rasgadas,
e verbos insanos.
Mas nenhum deles faz sentido
Se nada disso for sincero.

Tento relembrar, reescrever
Minhas desculpas. Mas as peço
Por tudo e por nada. Por cada
sílaba inexata. Dos versos regressos.

Deborah Caridade

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